montanha de pedras atiradas

O escritor tem de ser quatro pessoas.

1) O pirado, o obsédé

2) O idiota

3) O estilista

4) O crítico

1 fornece material; 2 deixa ser publicado; 3 é o gosto; 4 é a inteligência

Um grande escritor tem todos os quatro – mas é possível ser um bom escritor só com 1 e 2; são os mais importantes.

Diários [1947-1963], Susan Sontag

Pincenê

(…)

Quem uma vez esteve diante deste enigma indecifrável da nossa própria natureza fica amedrontado, sentindo que o gérmen daquilo está depositado em nós e que por qualquer coisa ele nos invade, nos toma, nos esmaga e nos sepulta numa desesperadora compreensão inversa e absurda de nós mesmos, dos outros e do mundo.

(…)

Depois da missão de reler os modernistas em São Paulo – é muito diferente lê-los em outra cidade – e descobrir no meio da missão outros títulos que eu não conhecia ainda, como Contos Novos, do Mário de Andrade, dei início à missão dois: reler os livros que li no colégio por obrigação mas acabei curtindo.

Então, pra não desviar muito da linha da história, comecei pelos pré-modernistas. Ou melhor, pelo livro que o Lima Barreto, que já era modernista pra caralho antes de 22, me laçou e disse “me anota aí na tua lista dos mulatos loucos mais apaixonantes”: O Triste Fim de Policarpo Quaresma.

Não é a primeira vez que releio as anotações do Major Quaresma, gosto de ser invadida por aquela pureza e purismo delirantes. Sua gritante solidão, suas reflexões poéticas e ao mesmo tempo analíticas sobre tudo, sua fina visão de política, o humor, a atitude de estudar violão pra entender a modinha, mas, principalmente, sua ingenuidade.

Elegante, erudito, sonhador, cheio de toc, não cabe em lugar algum, em nenhum centro, idolatria ou subúrbio. Sem contar seu amor incondicional pela pátria, sentimento que eu nunca vi manifestado fora dos livros. Pensando bem, o Major poderia ter nascido na França. Mas aí, fatalmente, não teria metade da graça.

Chico Xavier contra os Lactovacilos Vivos

Envelhecer com saúde é aprender a conferir nossos vocativos mais preciosos
- meu [amigo], meu [bem] – ao que mereça, de fato, nossa luz e atenção.

Mas, principalmente, é dar-se ao luxo e esperteza de escolher por quais
tipos de luz queremos ser iluminados.

É preservar. Não cometer o crime de tornar uma intimidade pública.

É aceitar desvios e demoras. O mal circula e reincinde em todas as coisas,
mas o melhor não tarda.

É não abrir mão da PUREZA.

É não temer os enganos. Sem engano não há ganho.

É construir e dissseminar uma POÉTICA. Seja você marceneiro, escriturário,
cozinheira ou dançarina.

É perder, feliz, todo o tempo do mundo com o que realmente importa.

é de comer com coentro

Em uma cultura falsamente ressuscitada, as relações com o passado espiritual estão envenenadas. O amor ao passado associa-se de muitas maneiras ao rancor contra o presente, à crença na posse de uma herança que se perde tão logo se supõe segura, e ao conforto na familiaridade da tradição, sob cujo signo esperam fugir do horror todos aqueles que, por cumplicidade, ajudaram a prepará-lo. A alternativa a tudo isso pode soar incisiva: o gesto que diz “não dá mais”. A alergia contra a falsa felicidade dessa segurança também se apodera, zelosamente, dos sonhos da verdadeira felicidade, e a crescente sensibilidade contra o sentimentalismo concentra-se no ponto abstrato do mero “agora”, diante do qual o que uma vez existiu vale tanto como se jamais houvesse existido. Experiência seria justamente a unidade entre tradição e anseio pelo desconhecido. Mas a própria possibilidade da experiência está ameaçada.

AdornoNoten zur Literatur, Frankfurt, 1974