Nadar é pensar em nada

A música Chuvas de Verão, famosa na voz de José Augusto e já citada por aqui, é a única música do mundo que consegue ser uma síntese de metáforas com fenônomenos naturais, termos metereológicos e aula de biologia.

Sem contar a ambientação sonora com barulho de trovão e grilos. Poderia perfeitamente ser uma novela de rádio.

Acredito que não seja tão cênica só por se chamar Chuvas de Verão, pois a música homônima de Fernando Lobo demandou menos esforço para esclarecer que se tratava de coisa passageira.

Talvez a de José Augusto seja mais complexa porque não trata só de “um amor chuva de verão”, trata de “um amor de primavera em chuvas de verão”. É outra elaboração, mais complexa.

Vejamos:

Veio feito nuvem/ Numa ventania/

(…)

Sentimento alado/ Senti minar na pele/ Transpirar de leve

(…)

Revirei teu pólos/ Relâmpago e viril/

Rajada de vento/ Em beijos turbulentos seduziu

REFRÃO:
Navegar teus sonhos
Regar teus sentimentos
Orvalho de amor
Flor de pensamento
Iê Iê

Nuvem passageira
Inverno de paixão
Amor de primavera
Em chuvas de verão.

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Papo de Guiness Book.

Imagem de Amostra do You Tube

Camamezibanho

Muita gente já deve ter pensado sobre isso, então vou me unir a esses: acho que o nome mais legal e cruel de móvel é CRIADO-MUDO.

CRIADO-MUDO, um móvel muito oportuno, equilibra tudo que não cabe à cama comportar.

Talvez seu único defeito seja não saber conversar. Ele é uma espécie de mordomo sem língua.

Há quem durma com livros, devotando-se a um copo, pendurado ao celular, enrolado no fio do mp3 player, com uma caneta no pescoço. Mas a esses não me confessaria pois provavelmente não valorizam a posse de criado-mudo.

Ok, apoio por apoio vocês me dizem: APOIADOR, BUFFET, ARCA, BALCÃO. Mas nenhum nome, para objetos de mesmo propósito, é tão bom quanto CRIADO-MUDO.

São curiosos os nomes de alguns móveis se o associarmos a sua utilidade. Comentei com o Heitorzinho sobre a peculiaridade do criado-mudo e ele rebateu “Mas você já parou pra pensar em ESTANTE, um móvel que leva no nome o dom de ESTAR”.

É de pensar.

Comentando com algumas pessoas sobre essas faltas de assunto envolvendo o mobiliário, Lívia me retornou a NAMORADEIRA.

E Leci, um utensílio quase sinônimo, a ROÇADEIRA.

Quem sabe mais algum?

Longe das esquinas de Ipanema III

Mas muito mais curioso do que isso, do que tudo isso e do que pensar que minha mania de “ruas com nomes diferentes pras quais eu posso construir alguma ligação ou não” começou no Rio na vez que passei pela primeira vez na RUA DA RELAÇÃO e percebi que ela era muito próxima à RUA DOS INVÁLIDOS, foi descobrir que no Tatuapé existe uma rua chamada

BATE CORAÇÃO

peito de remador

Eu vou prestigiar esse vídeo desafinado – afinal de contas nem sempre a afinação é essencial – porque ele é o único registro quando se procura por Nicanor, do Chico, no Utube.  Achei bonito que o cara tenha compartilhado na inocência seu momento íntimo de pureza ao violão cantando só pra se alegrar uma música que ele também deve gostar muito.

Nem falo pela técnica, mas pela emoção, acredito que cantar seja a forma mais corajosa e genuína de expressão – sai da alma, do coração, do corpo inteiro ao mesmo tempo – e quem consegue verdadeiramente se ouvir e se alegrar com a própria voz invoca as profundezas da doçura e alegra os outros também.

Não que dançar, escrever, pintar, fotografar, desenhar, filmar, encenar, tocar etc não sejam formas genuínas e corajosas de expressão, mas é que cantar, seilá, é diferente. É uma mistura de fênomeno físico com a metafísica porque dá dança às palavras e coloca seus sons em vibração no espaço.

Imagem de Amostra do You Tube

onde andará Nicanor/ tinha mãos de jardineiro/ quando tratava de amor/ há tanta moça na espera/ suas gentis primaveras/ um desperdício de flor/ onde andará Nicanor/ tinha amor pro porto inteiro/ um peito de remador/ (…) onde andará Nicanor/ tinha nó de marinheiro/ quando amarrava um amor/ (…)

Pip, Fup etc

Minha cabeça parecia um balão cheio de medo. Olhei para Pip e por uma fração de segundo senti como se ela não fosse ninguém especial no esquema maior da minha vida. Era só alguma garota que tinha me amarrado à sua perna para ajudá-la a afundar quando ela pulasse da ponte. Então pisquei e estava outra vez apaixonada por ela.

Trecho do conto “Alguma coisa que não precisa de coisa alguma” do livro novo da Ciranda JulyÉ claro que você sabe do que estou falando – Ed. Agir

Via Bri

tango es el abrazo

El Tango, por Pablo Corral Vega

Para vivir se necesita de poesía. Me refiero a la licencia que concedemos al mundo de tocarnos, de transformarnos, de herirnos; de arrebatarnos, de elevarnos, de hundirnos; de rescatarnos, de exponernos, de arroparnos, de desnudarnos.

“Uno”, ese tango tan amado de Enrique Santos Discépolo, dice “Uno busca lleno de esperanzas el camino que los sueños prometieron a sus ansias… Sabe que la lucha es cruel y es mucha, pero lucha y se desangra por la fe que lo empecina. Uno va arrastrándose entre espinas y en su afán de dar su amor, sufre y se destroza hasta entender, que uno se ha quedado sin corazón. Precio de un castigo que uno entrega, por un beso que no llega, o un amor que lo engañó…”

Cuando se vive con poesía, se ponen en riesgo el corazón, los afectos, la paz. Se arriesgan la mente, la piel, los huesos.

(…)

Continue lendo o relato do Pablo no Nestra Mirada, um grupo de fotoperiodistas iberoamericanos do Ning. Esse trabalho, que virou vídeo, foi um projeto realizado para a National Geographic. Você pode ver lá.

Sobre o velho tema da saudade

Tenho que confessar que adoro o sotaque da Astrud Gilberto cantando em inglês. Ta certo que você não ouviu ela cantar em português muitas vezes, e dou razão. Em inglês é mais bonito.  Não conheço muito pindoramense que curta, só ouço dizer que é sem emoção. Não acho. Gosto daqueles “r” caipiras dela pairando na melancoriza do nariz. Acho um chaume. Pabadabadá, pabadabadá. A versão de “Fly me to the moon” ilustra bem essa belleza.