JAVALI

today is tuesday; email me on saturday

the secret of life is decisiveness

and to describe something

i see the distance and move immediately into it

now i am really alone

from here i know these things: that a hamster is a lonely fist

that my poems exist to dispel irrational angers, that i want to hold your face

with my face

like a hand

the secret of life is that i miss you, and this describes life

tonight my heart feels shiny and calm as a soft wet star

i describe it from a distance, then move quickly away

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De quinze em quinze anos tenho vontade de traduzir um poema. Passo cinco com ele na cabeça, cinco pensando de que jeito gostaria de traduzi-lo para a minha língua e cinco dormindo. Foi assim com o “Es olvido” (Poemas e antipoemas, 1954), do Nicanor Parra.

É comum também perder muito tempo com inventar sentidos que o autor não deu (já que muitas vezes tentamos adivinhá-los), reescrever o poema, nada me impede. Até que uma hora sento com algumas versões e escolho uma, que agora compartilho com vocês.

O poema é do livro Cognitive-Behavioral Therapy (2008), segundo livro de poemas do Tao Lin, um escritor americano que descobri por recomendação da Amazon: Hello, Bruna Beber. We have recommendations for you.

Seguelo.

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hoje é terça; me escreva sábado

o segredo da vida é saber escolher

e para descrevê-lo

eu escolho a distância

agora estou realmente sozinho

daqui percebo que um hamster é uma embreagem solitária

que meus poemas existem para dissipar fúrias irracionais

que eu quero segurar a sua cara

com a minha cara

como mãos

o segredo da vida é que eu sinto a sua falta, e isso resume a vida

hoje meu coração está sereno e fúlgido como uma estrela-do-mar

digo tudo isso à distância, depois fujo

olha durant toda esta minha caminhada pela bola
que vocês chamam de terra outros de água
ou como carinhosamente já apelidaram
um amigo balofo no colégio

só consegui contrair
UMA certeza

– aprendam
o nome disso
é sabedoria –

e por isso gostaria
de didivi-la passem
para seus filhos

não há
sequer
UM ser

que também caminhe
conosco pela bola
– há quem a diga
achatada –

que não tenha
não teve
ou nunca terá

uma toalha
bordada

é importante
que seus filhos
passem pros deles
esta verdade

mas se não tiverem
filhos netos tudo bem
sempre terão toalhas
bordadas.

FUNABEM FEELINGS

ike nojo

Tava lembrando outro dia dos álbuns de figurinha que eu tive na infância. Não consigo lembrar de todos, mas lembro dos mais significativos:

1. Chaves: não completei por UMA figurinha. Era muito normal não completar um álbum por uma figurinha. Guardei por muitos anos, e lembro que um dia descobri que meu pai tinha jogado fora. Choro até hoje só de pensar. Mas ainda tenho algumas das figurinhas repetidas que sobraram. E obviamente NÃO vendo.

2. Os Trapalhões: era daqueles álbuns de banca de jornal, em papel vagabundo, que completando determinadas figuras você ganhava prêmios. Me lembro que, ironicamente, só consegui completar a figura do JOGO PARA PREPARAR CAIPIRINHA. Ele era de madeira e durou muito. Meu pai usava em todas as festas lá em casa. Que álbum infantil hoje tem um brinde de JOGO PARA PREPARAR CAIPIRINHA?

3. Cavaleiros do Zoodíaco: completei. Colecionei com o meu pai. Primeiro eu o eduquei a assistir o desenho, fazendo de tudo pra que ele se apaixonasse, e aí depois comprei o álbum. Resultado: ele virou o maníaco das figurinhas, de tanto que gostava do desenho, e trazia MUITAS figurinhas todos os dias. Imagina a EMOSSÃO.

4. Amar é…: minha mãe disse que comprou pra mim, mas quem colecionava era ela. Nunca achei muita graça nesse álbum. Nem ficava feliz quando minha mãe comprava figurinhas. Abandonei e quem terminou de colecionar foi minha tia mais nova. Anos mais tarde acho que ele voltou menos cafona, com cards até fofos.

5. Gang do Lixo: o álbum mais foda do mundo. O chefe da Gang era o Ike Nojo, o pantafaçudo acima, que estampava a capa do álbum. Me lembro que meus pais não quiseram comprar, alegavam que era muito asqueroso. Mas minha avó, que era muito bróder, comprou pra mim escondido.

Foi o álbum que eu mais amei na vida, e eu só conhecia um menino além de mim que tinha. Nunca fomos amigos porque ele era duma série a mais que eu. Ele foi expulso do colégio porque um dia teve um surto psicótico na hora do recreio e começou a berrar e correr e chutar TODOS os cascos de refrigerante que tinham no pátio. No final, com as canelas sangrando, ele olhou pra professora de Estudos Sociais e falou “vou te matar, sua piraaaaaaaaanha!”

Nunca tirei meu álbum da Gang do Lixo de casa porque tinha medo de perder. Mas até hoje não sei que fim deram nele. Há uns anos procurei infos dele nas Interwebs, mas nada achei. Hoje fui procurar de novo e achei outras pessoas que também amavam. Pra quem não lembra, dá pra saber a história do álbum e ver algumas das figurinhas aqui.

Décio Ralo, Jaques Brando, Boy Comida, Meio Punk, Nenem Tranhas, Dante Falante, Carlinhos Careta, Soldo Esgoto, Dida Linda, João Bolachão, Bat-Boca, Al Lixone e cia: saudades.

ALUMBRAMENTO

com que frequência acontece o novo?/ acontece o novo? acontece?/
com que frequência acontece de novo? acontece de novo? acontece?/

eu sempre oscilei, eu nunca confirmei
minha presença, minha presença, minha presença/

se for pra viajar/ que seja voando/ que seja voando/ que seja/
mas se for pra voar/ que seja a pé/ que seja a pé/ que seja/

eu sempre duvidei, eu nunca precisei/
andar de mão dada, andar de mão dada, andar de mão dada/

sorte dos cavalos que deitam pra comer na sombra/

às vezes calha da escolha não falhar/ escolha não falhar, não falha/
às vezes rola do espaço não se espalhar, não se espalhar, palha/

eu te demoro porque eu quero/ não tenho medo do que eu espero:
andar de mão dada, andar de mão dada, andar de mão dada…

de mão dada, do lettuce, o show mais MEMÓRIA POÉTICA que eu assisti no últimos anos.

Sérgio Sampaio

Eu tinha escrito 15 linhas sobre O que todo mundo quer – Ningúem liga, a minha preferida do último disco do Romulo Fróes. Mas eu não gosto nem leio resenhas, sempre opto pela experiência livre ao invés da guiada, principalmente em música, então não vou sacrificá-los. Ouvir é o mais recomendável, baixem o disco que tá liberado pelo artista e ouçam se se interessarem.

Segue o poema.

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Todo mundo quer o que eu não quero
Um braço de mar, uma linda paisagem
Todo mundo quer, o mais otário
Um dicionário, poemas de amor e de saudade

Todo mundo quer um trapo, um troço, um pouco
Pra botar na sala, pra esconder na cara
Todo mundo quer viver
Como é que eu sei que todo mundo quer?

Então, numa ilusão, mandei parar a produção
dos carros, cortei salários, quebrei faróis,
os si bemóis, Programas de televisão
joguei no chão, meu sonho em vão
deixei lá fora meu país e fui embora
Carnaval e mágoa, agora fico fora da canção

Olha lá, no mundo morto é o nosso amor quem brota
Se pela porta entram os homens numa nova mesma era
Agora, agora a história não, não entro não
Bem do meu peito apossa o rio do teu cordão
Entre duas gemas, dois problemas, dois dilemas
Eu escolho sempre o coração

Todo mundo quer o que eu não quero
Um braço de mar, uma linda paisagem
Todo mundo quer, o mais otário
Um dicionário, poemas de amor e de saudade

Todo mundo quer um trapo, um troço, um pouco
Pra botar na sala, pra esconder na cara
Todo mundo quer viver
Todo mundo quer viver
Todo mundo quer viver
Todo mundo quer viver
Todo mundo quer viver
Todo mundo quer viver
Todo mundo quer viver

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Subo nas árvores, subo na vida
Subo na escada e no poste de luz
Subo na chuva, na nuvem, na lua
Subo no Cristo, na cruz

Procuro do alto, cada vez mais alto
Aquilo que em ti me ilumina e conduz
Nem Deus, nem diabo
És tão engraçado
Mistura de réu e juiz

És meu namorado, pedaço arrancado
De dentro de tudo que fiz e não fiz
Tens nervos de aço, amigas, palhaços
e choras num dia feliz

Irmão disfarçado ou pobre coitado
O sol dessas noites de gelo e de giz
O pólo te abriga e o deserto não liga
Se és feito de lágrimas ou vis

Ninguém liga para nós
Ninguém liga
Nunca ligou pra nenhum de nós

Ninguém ouve a minha voz
Ninguém ouve
Ninguém nunca ouviu nenhum de nós

Desço do carro, desço na vida
Desço a ladeira que leva pro mar
Desço cantando, desço chorando
Peço pra Deus me ajudar

Peço pra quem, ninguém
Eu sei que vivo bem
Cheio de amor pelo que nunca vem
Meu santo é o vento, meu deus é por dentro
E o raio de sol meu altar

Boiando na multidão, ligado no que eles são
Sozinho e comum, tento multiplicar
Os frevos que eu sei, não sei
Os sambas que fiz, não fiz
Os beijos que eu quero te dar

Ninguém liga para nós
Ninguém liga
Dessa vez ficamos sós

Ninguém ouve a minha voz
Ninguém ouve
Acredito agora estamos sós

Todo mundo quer viver
Todo mundo quer viver
Todo mundo quer viver
Todo mundo quer viver.

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