DROMEDÁRIO

Quarto Tao Lin na área.

Enjoyem.

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eleven page poem, page three

my favorite emotions include ‘brief calmness

in good weather’ and ‘i am the only person alive’

without constant reassurance i feel terribly lonely and insane

i have moved beyond meaninglessness, far beyond meaninglessness

to something positive, life-affirming, and potentially best-selling

i have channeled most of my anger into creating and sustaining an

‘angry face’

i have picked up a medium-size glass of coffee

and used in the conventional way

because i’m conventional in all situations, i’ll be right back

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poema de onze páginas, página três

minhas emoções favoritas incluem ‘calma momentânea

em tempo firme’ e ‘eu sou a única pessoa viva no mundo’

com alguma certeza me sinto desesperadamente sozinho e louco

mas tenho passado longe da insignificância, muito além do sentido

para algo maior, que afirme a vida, e seja potencialmente vendável

tenho canalizado toda a minha fúria para construir e sustentar

‘minha indignação’

eu peguei um copo médio de café

e usei de um jeito convencional

porque eu sou convencional em todas as situações, volto já

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AVESTRUZ

+ 1 Tao Lin.

Para os demais já temos o javali e a capivara.

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eleven page poem, page five

my favorite situations include ‘people doing what the say’

‘people thinking factually,’ and ‘people crying alone in bed’

i don`t know how to fix this mini-disc player

without a meaningful philosophy of life

i feel severely unable to move as fast as they do in martial art movies

strong feelings of achievement later become barely perceptible

feelings of immense helplessness; I moved my body outside your house

past seven other houses

to meet you at the bus stop

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poema de onze páginas, página cinco

minhas situações favoritas incluem ‘pessoas que falam & fazem’

‘pessoas pensando, de fato,’ e ‘pessoas chorando sozinhas na cama’

eu não sei consertar um discman

sem apelar pra filosofia

sou incapaz de me mover tão rápido como nos filmes de ninja

os grandes sentimentos de realização um dia se tornam insignificantes

sentimentos de dependência; eu fui embora

de todas as casas que você morou

esperando te encontrar no ponto de ônibus

À TOA

Todas aquelas virtudes que a maturidade existencial confere ao homem são de curta duração, melancolicamente curta duração: o amor, a tolerância, a desambição, o perdão, a curiosidade pela natureza, a ternura universal, a recriação permanente do passado. Tudo isso que não tem importância quando a gente vive começa a ter importância quando a gente se prepara para morrer.

Afonso Arinos in Encontro Marcado com cinema de Fernando Sabino e David Neves  (2006)

TEM QUE TÁ MULEQUE

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Olha ele aí meus rapapés & apupos em edição brasilera pela nova coleção de poesia da 7Letras.

Lanceilo livro em 2010, só em Recife (na ocasião da FreePorto), impresso artesanalmente apenas 50 cópias e preparado com carinho pela Moinhos de Vento.

São 15 poemas escritos entre 2000 e 2005, e pedacinho de 2006, um aquecimento do que publiquei no livro de estreia.

Agora ele sai acompanhadamente pela 2a edição revista d’a fila sem fim dos demônios descontentes. E com ilustrações daquela época, da minha amiga e grande desenheira Francine Jallageas.

Só vendo a formosura.

Então é assim: dia 31 agora, terça-feira, é o lançamento carioca, junto com a edição 3 da Lado7 e dos livros de Marília Garcia, Jorge Vieiros de Castro, Lucas Guimaraens e Cristina Parga.

Infelizmente não estarei presente, mas vou fazer a primeira inauguração em SP. E aí mais pra frente vou ao Rio para lançá-lo às brisas.

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tudo tem onda

Tudo tem onda e coreografia. Tudo mesmo. Tudo o que conhecemos e o que julgamos não existir.

O mundo natural, o espaço sideral, o espaço físico, o cérebro, o coração, o corpo, as relações, o pensamento, a metafísica, a arte, a matéria, a ciência, o espírito, a fé.

Tudo tem onda.

O mundo é um aquário de ondas, mas uma foto tirada de fora revela só o terrário.

Gif via Baila.

 

CAPIVARA

Quinze anos já se passaram, trago +1 Tao Lin do livro Cognitive-Behavioral Therapy (2008), da leva bebês chorões existencialistas.

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i will learn how to love a person and then i will teach you and then we will know

seen from a great enough distance i cannot be seen

i feel this as an extremely distinct sensation

of feeling like shit; the effect of small children

is that they use declarative sentences and then look at your face

with an expression that says, ‘you will never do enough

for the people you love’; i can feel the universe expanding

and it feels like no one is trying hard enough

the effect of this is an extremely shitty sensation

of being the only person alive; i have been alone for a very long

        time

it will take an extreme person to make me feel less alone

the effect of being alone for a very long time

is that i have been thinking very hard and learning about

       existence, mortality

loneliness, people, society, and love; i am afraid

that I am not learning fast enough; i can feel the universe

        expanding

and it feels like no one has ever tried hard enough; when i cried in

        your room

it was the effect of an extremely distinct sensation that ‘i am the

        only person

alive,’ ‘i have not learned enough,’ and i can feel the universe

expanding and making things be further apart

and it feels like a declarative sentence

whose message is that we must try harder’

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 eu vou aprender a amar e vou te ensinar e nós vamos conseguir

de muito longe eu não posso ser visto

e acho que isso difere completamente

de me sentir pequeno; o bom das crianças

é que elas são afirmativas e olham bem na sua cara

com uma expressão de ‘você é incapaz

de fazer o mesmo pelas pessoas que ama’, eu sinto o universo se expandindo

e parece que ninguém está se esforçando o bastante

a consequência disso é uma sensação de vazio extremo

de ser a única pessoa viva no mundo; estou sozinho

       faz tempo

e vai demorar muito até alguém conseguir mudar isso

o bom de estar sozinho durante muito tempo

é que tenho lido e pensado bastante sobre

       vida, morte

solidão, pessoas, coletividade, e amor; temo apenas

a lentidão desse aprendizado; eu posso sentir o universo

      se expandindo

e parece que ninguém nunca se esforçou o bastante; quando chorei

       na porta da sua casa

tive uma sensação que difere completamente de “eu sou

       a única pessoa

viva’, ‘eu não aprendi quase nada’, e ‘eu posso sentir o universo

se expandindo e separando tudo

e isso parece afirmar

que devemos nos esforçar mais’

JAVALI

today is tuesday; email me on saturday

the secret of life is decisiveness

and to describe something

i see the distance and move immediately into it

now i am really alone

from here i know these things: that a hamster is a lonely fist

that my poems exist to dispel irrational angers, that i want to hold your face

with my face

like a hand

the secret of life is that i miss you, and this describes life

tonight my heart feels shiny and calm as a soft wet star

i describe it from a distance, then move quickly away

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De quinze em quinze anos tenho vontade de traduzir um poema. Passo cinco com ele na cabeça, cinco pensando de que jeito gostaria de traduzi-lo para a minha língua e cinco dormindo. Foi assim com o “Es olvido” (Poemas e antipoemas, 1954), do Nicanor Parra.

É comum também perder muito tempo com inventar sentidos que o autor não deu (já que muitas vezes tentamos adivinhá-los), reescrever o poema, nada me impede. Até que uma hora sento com algumas versões e escolho uma, que agora compartilho com vocês.

O poema é do livro Cognitive-Behavioral Therapy (2008), segundo livro de poemas do Tao Lin, um escritor americano que descobri por recomendação da Amazon: Hello, Bruna Beber. We have recommendations for you.

Seguelo.

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hoje é terça; me escreva sábado

o segredo da vida é saber escolher

e para descrevê-lo

eu escolho a distância

agora estou realmente sozinho

daqui percebo que um hamster é uma embreagem solitária

que meus poemas existem para dissipar fúrias irracionais

que eu quero segurar a sua cara

com a minha cara

como mãos

o segredo da vida é que eu sinto a sua falta, e isso resume a vida

hoje meu coração está sereno e fúlgido como uma estrela-do-mar

digo tudo isso à distância, depois fujo

SHADOWN

¡Vengan cumplidas moscas!

Cuántas veces de niño te vi
cruzar por mi alcoba de puntillas.
Enhebrabas tu aguja con manos
más ligeras que los días.

Luego te olvidé. No es poca cosa
vivir. El mundo es bello y el deseo
vasto. (Que lo diga Ulises,
cuando nada en el mar y come uvas
después de la batalla). Mas cada
año acortabas el hilo, zurcidora
aplicada.
Como una madre
o Penélope siempre lozana me has
guardado fidelidad. ¡La única!

Empollabas la herencia con tus
mimos. Solícita, cuidabas huesos,
dientes, toda la ruin materia
que te ceba.
¿Vale más el alma?
No encontraste nada en la mía
que e hiciera rey. Quedaba poco
cuando destapaste el pudridero.

¡Vengan cumplidas moscas! Hoy te pago
el ansia con que viví cada momento.

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Sé que estoy vivo

Sé que estoy vivo en este bello día
acostado contigo. Es el verano.
Acaloradas frutas en tu mano
vierten su espeso olor al mediodía.
Antes de aquí tendernos, no existía
este mundo radiante. ¡Nunca en vano
al deseo arrancamos el humano
amor que a las estrellas desafía!
Hacia el azul del mar corro desnudo.
Vuelvo a ti como al sol y en ti me anudo,
nazco en el esplendor de conocerte.
Siento el sudor ligero de la siesta.
Bebemos vino rojo. Esta es la fiesta
en que más recordamos a la muerte.

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Amantes

Somos como son los que se aman.
Al desnudarnos descubrimos dos monstruosos
desconocidos que se estrechan a tientas,
cicatrices con que el rencoroso deseo
señala a los que sin descanso se aman:
el tedio, la sospecha que invencible nos ata
en su red, como en la falta dos dioses adúlteros.
Enamorados como dos locos,
dos astros sanguinarios, dos dinastías
que hambrientas se disputan un reino,
queremos ser justicia, nos acechamos feroces,
nos engañamos, nos inferimos las viles injurias
con que el cielo afrenta a los que se aman.
Sólo para que mil veces nos incendie
el abrazo que en el mundo son los que se aman
mil veces morimos cada día.

>>> Jorge Gaitán Durán